quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O fascínio de ser visto

 

O marshmallow de cueca

Eu confesso, isso é meio viciante.

Existe algo atraente na ideia de ser visto, de ser observado, de estar no centro das coisas, sem receios nem vergonhas. A questão é que isso só se tornou claro e inegável para mim recentemente, mas, em meu íntimo, eu sinto isso desde muito cedo.

Mas, claro, depende muito do tipo de atenção que a gente recebe, em que contexto, em que situação, e, talvez o mais importante: se a gente está no controle ou não.

Eu toco teclado desde criança. Não sei precisar com que idade eu comecei a ter minhas primeiras aulas, mas eu estava no ensino fundamental. Eu tocava aquelas canções bem simples, em estilo "teclado de churrascaria": acorde na mão esquerda, melodia na mão direita. E eu gostava. Adorava, na realidade. Lembro que, em 1998, compus as minhas primeiras músicas nesse teclado, nessa mesma sistemática, e foi o máximo para mim.

Só que era muito constrangedor quando os adultos da família pediam para me ouvir tocar. Eu tinha medo de errar, de "fazer feio". Eu me sentia julgado e analisado nos mínimos detalhes, e eu travava. Volta e meia eu era levado na casa de parentes para tocar, ou eles vinham aqui e pediam um "pocket show", e eu fazia, mas sempre muito tenso e desconfortável.

Agora, pode até parecer uma contradição isso que eu vou dizer, mas hoje eu percebo que não é: eu adorava tocar em público.

Quando era para uma plateia anônima e desconhecida, eu me sentia bem. Era prazeroso tocar, porque eu não me sentia tão julgado. Era o meu show. Eu estava no controle. Quando eu tocava para a família, eles estavam no controle.

Quando eu era o "centro das atenções" no colégio por eu ser esquisito, "aluno exemplar" e péssimo no futebol, era doloroso. Eu só queria ser invisível, porque eles estavam no controle. Porém, subir no palco e ser visto como artista sempre foi viciante, embora minhas experiências eram limitadas.

Eu comecei a namorar o palco em uma oficina de teatro a partir de 2011, e foi intenso e fantástico. Três anos de experiências lindas, e eu só queria mais e mais daquilo. Lembro-me bem da minha primeira apresentação; embora fosse apenas para os alunos da turma, foi a primeira vez que tive que decorar texto, ensaiar, elaborar figurino e tudo. O texto que recebi foi uma cena da pesa Lisístrata, de Aristófanes, e eu fui a personagem titular. Eu sentia que, se eu tivesse a chance, encenaria a peça inteira nesse papel.

A experiência com o teatro acabou, mas, em seguida, veio a música. Toquei com a minha banda, toquei com amigos, toquei sozinho, e comecei a fazer minhas lives de sábado. Eu adoro. Estar no palco e ser visto e ouvido é realmente incendiário e apaixonante.

E, aí, veio o burlesco do Von Teese.

Cena deletada de O Tempo e o Vento, TV Globo, 1985

Se subir no palco já é viciante--seja como ator, músico ou o que for--expor o corpo assim chega a ser quase uma adicção patológica (quase!!). E é libertador poder admitir isso, ainda que da forma leve e jocosa que eu faço aqui. Por que é tão viciante? Sei lá! Mas é um misto de muitas sensações e anseios que já explodem dentro de mim há anos, e agora elas não precisam mais de bloqueios.

É pelo humor? Sim, claro que é. É pela meiguice? Também, com certeza. É pela sexualidade?... Ora, por que não? Voltando à questão do controle: embora eu esteja no controle de como eu me exponho, eu não controlo o que o público vê, o que pensa e o que sente. É o mesmo com a música: eu componho e canto canções que falam quase sempre de vivências pessoais íntimas, mas cada um projeta um pouco de si na minha música, e, sei lá, uma canção escrita para uma pessoa com quem eu me relacionei por algumas semanas em setembro de 2018 pode virar uma música que alguém dedica ao seu cônjuge de décadas, e isso só torna a coisa toda ainda mais mágica. E este meu "trabalho" "erótico" (como é estranho usar essas duas palavras assim) é a mesma coisa: o que é "fofo" para mim pode ser "ridículo" para o outro; o que é "engraçado" para mim pode ser "inspirador" para o outro; o que é "bobinho" para mim pode ser... "sexy" para o outro? Talvez? Por que não?

Seja lá como for, sejam lá quais forem as impressões do outro, eu confesso que tenho essa sensação febril, essa vontade de ser visto. Eu queria gritar, "me olhem, por favor!" Pode me taxar de narcísico e egocêntrico, mas, ei, eu não tô machucando ninguém, tô? Não tô fazendo mal a ninguém, então vá lá, azar. Pode ser uma ilusão isso de achar que estou fazendo uma grande diferença com estas fotos e esses textos, mas como diz a música daquele grande gênio porto-alegrense: "Se for pra ser assim, prefiro uma ilusão que não faça mal a ninguém".

Mas, por favor, continue me olhando.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Em defesa da cueca "slip" branca!

  Precisamos falar de cuecas! A alegria no olhar de quem vai falar de um assunto favorito ... ou pelo menos eu preciso. Mas o blog é meu , ...