Se tem coisa que me ofende profundamente, é a ofensa que não ofende.
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| Aquele olhar julgador... |
Existe um esforço associado ao ato de ofender alguém. Há um gasto de energia necessário para se achar o ponto fraco da pessoa, elaborar o insulto mais eficaz, e realmente atingir alguém. Eu penso assim: se alguém quer me ofender, então esforce-se. Até porque não é fácil: eu já ouvi tanta coisa nessa vida, e tenho um ego tão grande, e desfilo minhas fraquezas com tamanha facilidade, que pouca coisa realmente me agride.
E, de fato, se há algo que me agride, é a ofensa feita sem esforço, a ofensa óbvia, a ofensa clichê, preguiçosa, burra, sem vigor, sem ímpeto; a ofensa sem respeito à arte da ofensa. Mas, é claro, aqui, trata-se de uma agressão filosófica: não é a ofensa em si que ofende, mas a mediocridade por trás da ofensa. E não há exemplo mais icônico e perfeito da ofensa medíocre do que: "esse aí queima a rosca".
Sério, gente. O indivíduo que diz essa coisa não tem mais um pingo sequer de imaginação da mente. Os sonhos dessa pessoa são indistinguíveis da realidade, pois até o subconsciente dela perdeu inteiramente o contato com o imaginário e o surreal. É impossível achar algum equivalente a essa falta de criatividade dentre os artistas do mundo, até mesmo os mais medíocres, porque apenas para decidir fazer arte é necessário ter uma criatividade muitas ordens de grandeza maior do que é necessário para dizer que alguém "queima a rosca".
É claro que isso é bastante diferente para mim, que sou bissexual, e para o qual o ato de receber um pênis ereto em meu ânus não é nem um pouco impensável. Antes de prosseguirmos, deixemos uma coisa clara aqui: eu nunca pratiquei sexo "passivo", mas não por preconceito ou nojo, mas simplesmente porque eu até hoje não encontrei quem pudesse me deixar em uma situação confortável suficiente para experimentar. De resto, isso é, sim, uma coisa que eu faria com tranquilidade, mesmo que fosse pra no final constatar que eu não gosto. Mas, se eu gostar, eu faço, e é isso.
Mas o caso é que esse tipo de "ofensa" já me irritava antes mesmo de eu me reconhecer como bissexual: ah, se eu tenho tal opinião, é porque eu "queimo a rosca"? Sério mesmo? É só isso que vocês tem a oferecer como ataque? É patético, sabe? Se alguém realmente quisesse me ofender, diria que eu não queimo a rosca, porque eu sou incapaz de achar alguém que queira me comer.
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[pausa para eu chorar diante do espelho, ao som de How Soon Is Now, dos Smiths]
... mas, sério, uma pessoa que tem a grandeza de pensar em um insulto desses já merece um pingo de respeito meu; mas, né, o cara "mediano", o cara "padrãozinho", não tem grandeza nenhuma. Nem a burrice dele é grande: ela é só patética.
E o que me pega, também, é a visão de mundo por trás da frase "queimar a rosca".
Pensa no seguinte: mentalize esse cara "mediano", o "padrãozinho", esse tipo de cara que você conhece muito bem. Visualize ele em sua mente. Quando esse cara ouve a palavra "homossexualidade", a primeira e única imagem mental que esse cara tem é de um homem "dando o cu".
Essa é a única referência de homossexualidade que esse cara tem.
Tipo, não dá nem pra pedir que esse cara pense em duas mulheres homossexuais, porque, na maior parte do tempo, esse cara sequer reconhece a existência de uma mulher como um indivíduo, o que dirá duas. Não, pedir que ele se lembre da homossexualidade feminina é demais. Mas veja só: esse cara não pensa em um homem dando o cu para alguém. Esse cara não visualiza dois (ou mais, né) homens fazendo sexo. Ele não imagina o sexo anal como algo que envolve mais de uma pessoa. Não: a imagem dele é de um homem "dando o cu", e é isso. Dando o cu para quem? Para o nada. Para o vazio cósmico. E, como a ciência demonstrou, até o vácuo completo possui energia; logo, nesse sentido, dar o cu para o nada até poderia ser uma ideia interessante...
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| Eu tentei, mas não obtive sucesso... |
Mas o lance é esse: o problema que esse cara tem com a homossexualidade não é a homossexualidade em si; ou seja, na atração sexual entre duas pessoas de mesmo sexo ou gênero. O problema que esse cara tem é com o homem que ousa colocar-se em uma posição de receber algo, de estar "abaixo", de estrar "sob controle". O problema é um homem que tem a empáfia de não ser dominador, controlador.
E isso é compreensível: esse cara aprendeu a vida inteira que ele tinha que ser assim.
Imagine você, anos e anos aprendendo a se moldar de acordo com essa exigência de "masculinidade", que vem de todos os lugares: família, colégio, amigos, televisão, Internet, tudo. O cara foi bombardeado com a imposição de ser "machão", e se convenceu de que essa é a única alternativa.
E aí, vem um "Fernie" qualquer, uma bicha branquela com corpo de mascote da Michelin, e diz que todo esse aprendizado foi inútil?
Então, esse cara precisa crer que dizer que eu "queimo a rosca" é um insulto, pois isso seria um insulto para ele. Ele receberia essa frase como uma lembrança de que toda a sua vida foi uma mentira. E é por isso que essa "ofensa que não ofende" é, no final das contas, uma agressão: ela é uma autoagressão. O cara que está dizendo isso está matando a si mesmo um pouquinho.
... e eu tô aqui esperando ainda pra ver se esse negócio de queimar a rosca é tão bom quanto dizem...
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| "I am human and I need to be loved..." ... mas pelo menos eu não sou um xenófobo escroto. |



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